Muitos se perguntam de onde nasce a força necessária para que nos movamos na direção de quem desejamos ser e que, sabiamente, já intuímos que somos. A primeira cena do filme mostra Waris, no deserto, com um cabrito recém-nascido ao qual dá um nome sagrado para o Islã. Seu irmão menor diz que isso não é permitido e ela retruca: “quem disse?”, mostrando sua conexão com seus próprios valores. Uma menina tão jovem já desafia seu ambiente e suas tradições. Trair as tradições é indispensável à autonomia do sujeito e suas forças criativas.
A vida desta família, ainda que cheia de privações, parecia repleta de amor. É neste ponto que uma reflexão se impõe. A maioria das violências e abusos sofridos por crianças e adolescentes acontecemdentro da família e, por vezes, os pais estão convencidos de que é a forma correta de educarem. É a mãe de Waris sua grande coadjuvante, tanto na mutilação quanto na libertação. A cena em que é levada, aos 3anos, para o bárbaro procedimento, mostra a dor de sua mãe e seu submetimento a uma tradição na qual acredita. Anos mais tarde, é esta mesma mãe que lhe permite romper com o padrão, permitindo-lhe a fuga. Waris retira-se por entre a madrugada do deserto e foge de um casamento para o qual ela fora vendida.
Anos mais tarde, em Londres, encontra uma outra mulher com quem estabelece um novo vínculo afetivo e é, na sua presença, que descobre que o procedimento que sofreu não é realizado em todas as mulheres. A confiança e o amor gerado neste encontro lhe permite que, em uma situação dedor relacionada à mutilação, seja conduzida pela amiga para atendimento num hospital.
Waris lembra da menina que cruzou o deserto. Lembra também de sua avó contando que a mãe fugiu para se casar com um nômade. É neste encontro consigo e com a história da mãe a quem ama que reúne forças para quebrar com a tradição e decide pela cirurgia. Percebe-se que a protagonista vai cada vez mais se tornando si-própriae abrindo caminhos criativos para a realização de sua potência.
O filme segue com inúmeras passagens reveladoras, mesmo para pessoas que vivem em sociedades sem essas tradições. No entanto, talvez as mais graves mutilações sejam praticadas por nós próprios quando não ousamos romper com valores que não são nossos e seguimos tentando viver segundo valores alheios. Esse submetimento adoece a alma e o corpo e, muitas vezes, sequer percebemos.
A última cena do filme mostra Waris discursando na ONU. Inicia sua fala, afirmando: amo minha mãe, amo minha família, amo a África, mas a prática da mutilação genital adoece todo um povo. Sua denúncia aponta para a importância da quebra do silêncio. A saúde de cada um de nós mais dificilmente será mantida se estivermos sozinhos. É preciso que a saúde se espalhe, contamine o maior número de pessoas. É preciso que cada um seja porta voz de seus valores, que denuncie abusos e violências, mesmo quando praticados sob a “des-culpa” do amor. Nossa segurança e saúde dependem da saúde de cada habitante deste país.