SUBVERSIVAS

17 de dezembro de 2008

Saionara Campos Godinho

            Perca o controle!!! Quando ouvi essa expressão pela primeira vez, ela soou muito estranho. Foi Denise que me convidou a fazê-lo e, logo depois, conheci a Titi – uma elementa bem perigosa e sem nenhum tipo de “tentativa de controle”. Fui descobrindo, a cada encontro, o imenso potencial subversivo dessas duas.

            Denise é puro charme, bem articulada. Titi é uma sedutora, um convite à transgressão. As duas juntas, um gole de marguerita, uma mistura fina e embriagante.

            Chegando ao covil, a senha de entrada é bororó25. O local é bem camuflado, para quem olha de fora, parece, apenas, mais uma casa de gente fútil, cotidiana e tributável – como diria Pessoa. Engano. Transpondo o portão, descortina-se a grande floresta de Sherwood, com direito à casa na árvore e tudo… Carpas nadam impunemente em um lago espelhado que, no fundo, no fundo… o fundo é falso. As pedras são plantas, as plantas são muros, os muros são curvas e as curvas não tem fim em si mesmas.

           Não fui a única. Na primeira reunião, encontrei lá outras vítimas, buscando perder o controle, ou o desejo dele, como aprendi nos encontros seguintes. E, de vítimas da vida, fomos nos tornando protagonistas da nossa própria vida… com a única certeza possível – não há controle algum. E, se não há controle, não há lógica. E, se não há lógica, não existe o “ato perfeito”. Sem isso, não há crítica e, sem crítica, não há sofrimento. Tudo é, agora, re-concebido, a maior perfeição possível. A propósito, sempre achei que o “Cândido” de Voltaire nos observava secretamente através de algum quadro pendurado na parede.

            Aliás, na sala em que arquitetávamos a reviravolta, muitos personagens desfilaram, alguns definitivamente sepultados… Pobre Platão e seus comparsas. Pinóquio, finalmente, fora libertado. A mentira não é pecaminosa, desde que saibamos, em nosso íntimo, tratar-se de uma invenção que nos convém, naquele momento. Há também o boneco de bolacha, todo recheado de desejos em permanente convenção prá saber qual deles nos acompanhará. Somos tão povoados!

            Já ia esquecendo… tem também um triste e solitário banquinho que, hoje, é só a sombra dos nossos dias de arrogância.

            Recordo cada objeto meticulosamente disposto na sala. O caleidoscópio – que muda a cada novo movimento;  o quadro de areia – que nunca repete a mesma imagem; o polvo – que expandindo seus tentáculos, pode proteger e pode sufocar; a capa de “la preferida” – que nos torna visíveis somente para nós mesmos; o filtro-dos-sonhos – um dos tantos guardiões do nosso inconsciente; o sofá útero – onde nos afetávamos e nascíamos eternamente; e a rosa – que apesar do perfume, tem lindos espinhos… Cada um deles é a chave de um segredo que precisamos desvendar para melhor desfrutar a travessia.

             Acampamos nossos problemas e histórias no meio da sala, queimando na fogueira antigas frustrações, versões menos apaixonadas de nós próprios. Agora, jazem cadáveres de expectativas, de preocupação e de esperança. E assim, fomos nos parindo e, para delírio das adoráveis subversivas, perdendo, aos poucos, a ilusão de controle.

            Mergulhamos em nossos medos, nos desafiamos e, muitas vezes, pensávamos ser impossível não nos afogar em nossas lágrimas. Quando emergíamos e pisávamos o solo, já não erámos os mesmos, pisávamos na terra firme de uma vida só nossa, re-inventada, subversivamente gozada.

            Não há uma única versão de nós, temos inúmeras sub-versões, invertidas e vertidas de nós e a melhor delas é a que mais acolhe, que melhor se afeta e é afetada, colecionando preciosas imperfeições-perfeitas.

            Nasci em uma quinta-feira qualquer. Cheguei incógnita e nua (despida de mim mesma) e, quando me apercebi, era uma ilha, cercada de gente querida por todos os lados, todos atraídos para as reuniões dessa Ordem Gregária, Libertadora e Apaixonante.

            Quem ligar a TV irá ver as duas subversivas à bordo de um navio, levando bem-viver de contrabando, pirateando o horário nobre, dando um golpe mortal na “Favorita”. Vão…há muitos ainda por co-romper.

Amo vocês.

Saiô